Paixões

No mês passado fiz um curso de escrita criativa. Nunca na vida tinha feito algo do género, nunca tive muito interesse por atividades criativas e artísticas, mas descobri recentemente uma enorme paixão pela escrita, pelo que decidi investir algum tempo numa atividade mais formal de escrita. Quando a formadora perguntou a cada um de nós o motivo por que estávamos ali, a minha resposta foi algo deste género:

Sempre adorei ler, sou devoradora e consumidora compulsiva de livros. Por várias vezes ao longo da minha vida me passou pela cabeça o pensamento “hum, eu também podia fazer isto, um livro…” No entanto, sou uma pessoa altamente analítica, todo o meu percurso académico e profissional foi e é 100% voltado para as ciências, nunca me senti muito criativa, por isso o travão que sempre impus a mim própria e que me impediu de escrever foi “não, nem pensar, não tenho imaginação nem criatividade suficientes para isso”. Assim, inscrevi-me no curso de escrita criativa para pôr isso à prova e alimentar então a criatividade que supostamente todos temos dentro de nós.

A resposta da formadora foi para mim muito interessante e curiosa. Disse ela que também dá cursos de poesia e que a maior parte das pessoas que frequentam esses cursos são da área das ciências. Continuou dizendo que as pessoas mais analíticas e científicas têm tendencialmente uma mente muito aberta, e por isso mesmo costumam ser pessoas com muitos e variados interesses. Esta conclusão fez-me sentido, porque é real para mim. É algo sobre o qual já tenho desabafado com algumas pessoas: tenho demasiados interesses.

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Primeiro que tudo, há o meu trabalho. Desse não posso fugir e a verdade é que adoro aquilo que faço. Nuns dias mais do que noutros, vá, nada é perfeito e há aspetos dos quais não gosto tanto. Mas mesmo removendo esses aspetos menos positivos, e gostando eu do resto, é um trabalho carregado de stress, preocupações, desentendimentos, conflitos e muito, muito cansaço físico e mental (a maior parte das vezes mais mental do que físico).

Depois, há a saúde e o fitness. Não faço disto o meu principal hobby como algumas bloggers e instagramers que sigo, mas ainda ocupa uma parte significativa do meu tempo. Desde pesquisar receitas, ir às compras, preparar refeições, e depois arrumar a cozinha, preparar porções para congelar, planear os macros do dia seguinte no myfitnesspal. Fazer exercício, incluindo ginásio, caminhadas, natação, yoga. E ainda várias horas online a tentar perceber as melhores estratégias para perder peso (algo com que quase toda a vida lutei), quais os alimentos mais saudáveis, últimas tendências de treino, mindset, como dormir melhor, meditação. Resumindo, são mais uma quantas horas dedicadas a isto.

A seguir vem a leitura. Amo ler. Nem sequer sei explicar bem esta minha paixão mas perco-me nos livros e com os livros. Não consigo parar de os comprar porque há tantos que quero ler, por isso tenho tantos livros em casa por ler, e é uma coisa que me aflige, a falta de tempo para os ler a todos. Como é possível, tantos livros e tão pouco tempo? Neste momento, entre livros que fui comprando, outros que me ofereceram e muitos que trouxe de casa dos meus pais porque quero muito lê-los, tenho em casa mais de 100 livros por ler. Claro que com esta paixão não é só a leitura propriamente dita que ocupa o meu tempo. Há também os blogs de literatura, e acima de tudo, o Booktube. “E o que é o Booktube?”, pergunta quem não sabe. Bem, o Booktube é uma invenção maravilhosa que consiste numa comunidade de pessoas que gostam muito de ler mas também de falar sobre livros. E então essas pessoas filmam-se a si próprias a falar de livros: os livros que compraram e os que leram nesse mês, críticas ao que leram, “tags” de perguntas sobre livros, que livros esperam vir a ler no mês seguinte, visitas guiadas às suas estantes, entre outras coisas assim divertidas. Depois publicam esses conteúdos no Youtube e há muuuuitas pessoas que passam horas a ver esses vídeos e eu sou uma delas. Pode parecer estranho para quem não esteja muito familiarizado com o conceito, mas acreditem, é divertido. Eu adoro o Booktube, principalmente porque leio muitos livros em Inglês e se não fosse pelo Booktube não tomaria conhecimento nem de metade deles. Sigo perto de dez booktubers regularmente, o que ao final do mês dá umas boas horas de vídeos (não sei bem se chega a horas, nunca fiz as contas, mas é muito tempo). Tenho tentado reduzir este vício mas enfim, tenho de me manter atualizada, certo?

Depois da leitura vem obviamente a escrita. Esta é uma paixão recente mas que tem vindo a ocupar cada vez mais o meu tempo, e ainda bem. Desde o curso de escrita criativa que mencionei acima, a este blog, a outros projetos de escrita que tenho em mãos e que quero muito fazer andar para a frente. É verdade que descobri aos 30 anos que adoro escrever, mas nunca é tarde, certo? Quero mesmo transformar este no meu hobby principal e sinto que tal já está a acontecer.

Viagens! Quem não adora viajar? Para mim é uma das melhores coisas que se pode fazer. O meu principal objetivo de vida (a seguir a ser feliz) é conhecer tanto do Mundo quanto possível. Quando penso no dinheiro que sobra ao final do mês, o pensamento voa imediatamente para a próxima viagem. Mas eu tenho um enorme problema: eu gosto de planear as minhas viagens muito bem e com muita antecedência. E com isto não quero dizer que as minhas viagens sejam programadas ao detalhe, muito pelo contrário, quando vou de férias até prefiro andar ao sabor do vento e não ter grandes planos. Não é por aí. Mas para mim o planeamento começa com as pesquisas dos voos. Sou capaz de passar semanas (isto com meses de antecedência) a consultar os preços dos voos todos os dias, até sentir que tenho um entendimento mais ou menos bom de como os preços variam. Isto claro, para as viagens maiores, se decidirmos de repente fazer uma escapadela de dois ou três dias a coisa pode não funcionar assim. Pronto, depois de ter os voos comprados, aí chega a parte divertida. Procurar hoteis, qual a localização mais indicada para ficar segundo o tipo de atividades que queremos fazer, é preferível um hotel ou um AirBnB, arranjar uma lista de restaurantes interessantes onde possamos querer ir, quais os pontos de interesse da cidade, qual o melhor meio de transporte. Se for uma viagem com várias paragens então nem se fala: há que decidir o itinerário, quanto tempo vamos ficar em cada sítio, alugar carro, estimar custos com gasolina, portagens e outras despesas. Lembro-me tão bem quando planeei o itinerário da nossa roadtrip na costa oeste do Estados Unidos. O R. Tinha ido passar o fim de semana fora com uns amigos. Era sábado e eu estava sozinha em casa. Às 11 da manhã decidi: vou começar a pensar no itinerário para a nossa viagem. Trato disso numa horita, talvez hora e meia e depois vou almoçar. Fui almoçar 5 horas depois com o percurso basicamente todo definido para 20 dias e 3500 quilómetros! Faltavam mais de 4 meses para a viagem. Por isso, eu perco tempo com estas coisas. Eu chego de uma viagem e já estou a pensar na seguinte (a sério, acho que foi na semana a seguir a esta mesma roadtrip que comprei dois guias Lonely Planet para as viagens seguintes).

Estes são os principais, depois há hobbies que hoje em dia são menores. A culinária já ocupou uma parte muito significativa do meu tempo. Adoro fazer doces: bolos, bolachas, queques, scones, cupcakes, panquecas, variadas sobremesas. E quando faço gosto de fazer coisas elaboradas. Adoro quando os outros provam aquilo que eu fiz e vejo que estão verdadeiramente a gostar. Hoje em dia não invisto tanto tempo nisso porque acabava sempre por comer também e como me preocupo cada vez mais com a minha saúde e forma física, acabo por preferir não os fazer. Depois há as séries, que também já não ocupam nem de perto nem de longe o tempo que já ocuparam na minha vida. Eu era a pessoa que me orgulhava de seguir 13 séries semanalmente. Hoje não tenho tempo para isso, sigo 3 ou 4 e mesmo assim vão acumulando e não consigo ter quase nada em dia.

Resumindo: são muitos interesses, muitas paixões! Como arranjar tempo para dedicar a tudo isto se o dia só tem 24 horas e o fim de semana só tem dois dias? É que para além disto depois ainda há outras coisas a fazer: arrumar a casa (porque mesmo tendo alguém que nos ajude, há sempre coisas que temos de ser nós a fazer), estar com as pessoas (tipo, família e amigos, sabem, para não sermos apelidados de anti-sociais), pagar contas, tratar do IRS, levar o carro à manutenção, comprar prendas de aniversário, entre muitas outras coisas que agora de certeza não me estou a lembrar.

Sinto que estou sempre a ter de priorizar, e algumas coisas vão sempre ficando para segundo plano, para mais tarde, para quando houver tempo. Há que fazer opções, selecionar aquilo que realmente nos interessa e esperar pela idade da reforma para poder ter mais tempo para o resto. E aqui há mais um pormenor: é que eu ainda nem tenho filhos. Nem sequer consigo imaginar como vou conseguir conciliar tudo quando os tiver (já sei, não vou). E isso assusta-me e é um dos motivos (mas não o único) pelo qual ainda não me sinto preparada para os ter.

Mais alguém se identifica com isto? Não devo ser a única, pois não?

(Já agora, este blog não tem um tema particular, não é um blog de culinária, nem de fitness, nem de livros, nem de escrita, nem de lifestyle, mas aviso já que por aqui vão poder encontrar um pouco de todos os meus interesses que estão descritos aqui acima)

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